28 de abril de 2012

Criativas Criaturas #6

O que é arte? Arriscando um palpite, pode-se dizer que arte é pura expressão de vontades indefinidas. É um ser de mente cheia querendo se esvaziar, ou algo do tipo. Mas pouco importa essas fracas definições... Sabemos que o assunto vai muito além de acepções. E por atuar assim, que a arte é o que é. 

Dito isto, conheça Jenifer Nunes; nossa artista da semana.


Breve História 

A jovem mora no Amapá há uns 15 anos, é natural de Salvador-BA, mas a família é do Pará e Rio Grande do Sul. Contudo, sente que é mesmo do Buritizal. 

A arte começou na sua vida através da dança (foram sete anos de estudos). Na infância, explorou três escolas ao mesmo tempo, de tanta paixão que sentia. Tinha a impressão que era só olhar por um minuto qualquer dança que saberia fazer igual. A menina tinha facilidade em captar os movimentos... “é uma questão de ritmo e tempo”. 

Na adolescência passou para o desenho técnico das belas-artes, o que diz ter sido difícil de desprender-se depois. Já aos 18 anos, surgiu um convite de três amigos para participar de uma Cia de teatro, onde ela seria a quarta integrante - “topei”. A Cia, como frutos de seus experimentos, apresentou uma peça “intuitiva” feito com recortes de textos de dramaturgos que lhes agradavam. “Foi muito legal pra perceber que prefiro pensar em cenografia, iluminação, trilha. Teatro é pulso e bem diferente da arte visual, que é um processo introspectivo”, complementa. 

Jenifer gosta de ouvir música, pra tudo. Ocupou-se como vocalista em três bandas; na última também compunha canções. Nesse tempo, aprendeu sobre o mundo material, conheceu muitos lugares e pessoas. Ainda brinca de música, mas por enquanto, sozinha.

Como diz, o vídeo é a síntese de tudo: imagem, som, palavra, cor e gesto. Influenciada pelo irmão, ela cresceu vendo muitos filmes - especialmente os antigos. Conseqüentemente, sua formação estética vem desse bolo todo.
Inclusive, a moça foi responsável por um cineclube, no Salão João XXIII. Seu prazer estava em organizar todos os detalhes, da curadoria dos filmes, do espaço e ter o feedback das pessoas. “Por vezes, eu chegava bem cedo pra arrumar tudo e ficava lá, sozinha, em silêncio, só curtindo o espaço, que é muito legal”, relembra. 

Diante de tanto, se formou em Artes Visuais, pela Unifap. Foi então que veio pensar em arte. Atualmente, trabalha como artista gráfica. Interessada em design e ilustração, gosta de resolver questões visuais, e de poder dar um toque poético às coisas. 

Veja seus feitos: 

“Em espelhos: aqui”, 2010.


Esse vídeo faz parte do meu trabalho de conclusão de curso, juntamente com o material textual que o problematiza. O dispositivo inicial se deu a partir do estranhamento que me causavam as obras de figurativismo “regional” de artistas locais e todo o discurso político pedante que os envolvem. No processo identifiquei que isso não é apenas um recorte local, mas brasileiro. Tudo começa na Missão Francesa, ainda no início da nossa colonização, que é quando este então grupo de artistas vem com a missão de criar uma identidade brasileira. Europeus que em seus quadros ressaltavam nossas “exoticidades”: a fauna, a flora e os costumes pouco “civilizado” dos que aqui moravam. 

Tudo isso (técnica+reprodução+exotismos+bucolismo) vem desaguar até hoje em escolas de belas-artes do país, como a Cândido Portinari, por onde inclusive eu passei e na época questionava meus professores “Mas, por que vocês pintam isso? Nem é o que vocês vivem”, daí, me respondiam: “Bom, é o que turista compra”. O fato é que não existem fronteiras geográficas, quem os criou foram os humanos, por fatores de origem física, sim, mas principalmente política. Da mesma forma ocorre na construção de discursos, de identidades. O regionalismo já nasceu natimorto, não preciso me afirmar local porque automaticamente já sou. E é uma relação proporcionalmente inversa: quanto menor o espaço geográfico, mas intenso é o tal discurso.

A obra pretende revisitar tudo isto a partir do maior emblema da civilização, a cidade – a qual é tão negada nos tais quadros saudosista e bucólicos. Então ícones como farinha, bicicleta, peixe, açaí, pessoas de fenótipo local, o rio, a fortaleza, o brega, e elementos da cidade são resgatados. Utilizo como metodologia o conceito de flanêur, termo criado por Baudelaire em suas poesias que tentavam captar as novas nuances da capital do séc. XIX, Paris , emblema da modernidade e exemplo de como as cidades se configurariam a partir daquele período. “Flanar” consiste basicamente em andar sem mapas, sem destino, observar os detalhes, se deixar levar pela cidade (pois cada uma tem seu jeito). E as resultantes colagens destes fragmentos são a expressão da policromia, polifonia e múltiplos sentidos e estímulos que a experiência de estar na cidade nos provoca. Acabou-se criando uma arqueologia e mapeamento de Macapá de origem afetiva e surreal. Os conceitos de poéticas urbanas e cidades invisíveis foram fundamentais.

Este trabalho foi pensado junto com meu amigo Tarcísio Teixeira, que é trompetista/trompista. Fomos juntos dando uns rolês na cidade, eu filmando e ele gravando os sons do espaço de forma mais delicada. A trilha é original e foi pensada nas linhas da música contemporânea, eletroacústica e paisagem sonora. Usamos softwares de áudio, guitarra, teclado, trompete, a voz e o violoncelo, tocado pela Thayana Galeão. Foi muito divertido, usamos fones de ouvido no modo invertido como microfone (invenção do Tarcísio). O Daniel Nec contribuiu na edição, foi uma semana, direto, eu bolando quais seriam as seqüências, sobreposições e tratamento de imagens e ele executando.
Ufa, é isso!


“Brechando”, 2011



É uma instalação bem humorada que flerta com o voyeurismo, se traduzindo nesse verbo local que é o “brechar”. O que gostamos de brechar? Lá tem algumas sugestões. Esta obra toma corpo essencialmente a partir da intervenção do público, que precisa agir para poder experimentá-la. Fisicamente trata-se de uma caixa de madeira cheia de monóculos que contém negativos revelados monocromaticamente (as fotos foram tiradas em câmera analógica). Esse trabalho fez parte da exposição “Dezconstroem30dias”, dos Catitas, realizado no Sesc Amapá final do ano de 2011. Fiz questão de colocar a caixa num ponto alto (ela acabou caindo!) da parede, de forma que as pessoas precisassem subir uma escada pra poder olhar pelos buraquinhos. Afinal, brechar nunca é uma experiência muito confortável, rs.

Ilustrações, 2011



Tudo começou comigo querendo me livrar do que aprendi no Cândido Portinari, rs. Queria desenvolver formas simples. Aos poucos fui desenvolvendo estes personagens, que penso como arquétipos – existem outros que ainda não desenhei. Me inspiro no inconsciente coletivo, na história e nos mitos. Desde pequena, sempre gostei de desenhar em preto e branco e continuo assim. Meus desenhos são racionais, não consigo (ainda) simplesmente deixar fluir.

Tem mais...



Auto- Jenifer? 

Freira lésbica assassina 

Cabeça ferve de ideias quando?

Sempre gostei de olhar, também ouço e leio. 

Aperta o olho quando? 

...tenho sono, feito gato. 

Cara feia para? 

A vontade de poder e a falta de respeito que isso desencadeia: dominação, repressão, indiferença, extinção; a "seriedade" do animal-adulto-civilizado; os valores do homem-branco-burguês-hetero-judáico-cristão; a dicotomia que dificulta percebermos que podemos ser o que quisermos, que não somos nosso corpo, e que o “inimigo” ou “revolução” está/começa dentro de nós; carros rápidos; carne morta; descartáveis; o deslumbre com a tecnologia, com celebridades; falta de espaços verdes. Essas coisas, rs. Tudo se resume a uma equação falta/excesso, nossa busca é por equilíbrio.

Info- bônus? 

Estarei expondo trabalho no Liberdade ao Rock, dia 28 de maio, junto com os Catitas. A exposição se chama "13 gatos pretos". Estará disponível à venda o Zine com ilustrações nossas + história do Ronaldo Rony (à R$0,50). Lá, também venderei comida vegetariana. 

http://www.flickr.com/photos/jjnunes/

Elisama Jamilie 

3 comentários:

Thay Galeão disse...

Gosto muito dos textos da Elisama. Retratou muito bem!Parabéns.

CAMILA FERREIRA disse...

Elisama arrasa!

Elisama Jamilie disse...

Os créditos são todos da Jeni, meninas. Parabéns pra ela :)