12 de abril de 2012

Rasgando a película


Hannibal - A origem do mal

Diferente do clássico de Jonathan Demme (O Silêncio dos inocentes), que faz da investigação e dos traumas de Clarice Starling a razão de seu filme, em Hannibal, longa de Ridley Scott, como o próprio título indica, é ele, Hannibal Lecter, e apenas ele o personagem principal, e são as suas ações, e até mesmo sua ausência, que movimentam toda a trama. Justamente, mais do que nos outros dois filmes da “trilogia” (incluindo aí, Dragão Vermelho), nesse ele não é “apenas” um coadjuvante de peso. É o personagem que nos fascina, que atrai a nossa atenção, e o interesse de todos os personagens, já que todos, de alguma forma, são modificados com a presença dele.

Clarice Starling, numa operação policial desastrosa, chama a atenção da mídia e de Mason Verger, um sobrevivente de Hannibal Lecter. Verger, através de uma corrompida relação com o Judiciário, tem a chance de reencontrar Hannibal, que está foragido há anos. Starling, devido à influência de Veger, entra no caso para recapturar Hannibal. Mas onde estará Hannibal? A investigação de Clarice a leva a Hannibal e a novos personagens, e a um trágico resultado para eles, como vemos numa cena particularmente violenta com javalis, o enforcamento, e o “jante seu cérebro”.

Fazendo um pequeno comentário sobre a cena da operação policial, a atual Clarice Starling entende que uma mulher num ambiente dominado por homens, se não se vestir “de homem”, se não for consciente de sua autoridade e exercê-la duramente, não será ouvida, e nem respeitada. Se isso causa antipatia em quem a vê, faz parte. É a sina das mulheres que exercem poder. Não é de se estranhar que esse subtexto esteja num filme do diretor do feminista Thelma e Louise. Agora, a atitude de Clarice Starling, já agora nesse início, pode também causar desconforto em parte dos espectadores, afastando-os Dela, e assim como tem a antipatia do restante dos personagens, também cria antipatia em quem a vê. Novamente, faz parte.

Não digo, com isso, que a Clarice Starling de Julianne Moore seja tão boa quanto à de Jodie Foster. Mas ela não é o desastre que muitos afirmaram. Se não consegue exercer o fascínio da anterior, é porque, acho, investiu num olhar “carregado”, “pesado” e melancólico. E também porque esse filme não se interessa tanto pelos seus traumas, e sim, por Hannibal. E como não há qualquer dificuldade de Anthony Hopkins em protagonizá-lo...
É preciso entender que os assassinatos de Hannibal não são “gratuitos”, ele tem um sistema de valores que o faz considerar Mason Verger um pervertido e que o impede de assassinar Clarice Starling. "Mostrar seu desprezo para aqueles que o provocam ou prestar um serviço público". Se, de alguma forma, nessa sua ética particular, Clarice o decepcionar, ele a mata. E leva tão a sério que o obriga a tomaraquela decisão no final do filme. Mais um exemplo desse padrão (spoilers): a morte de Francesco.

Sabendo que Hannibal era perigoso, por avareza, Francesco resolveu capturá-lo. E como subestimou Hannibal, este decidiu matá-lo. A punição para a avareza de Francesco era a morte por enforcamento, assim como foi a morte de Judas. E, mais ainda, há o paralelo com a morte de um antepassado seu, também morto por enforcamento. Esse antepassado teve uma "justa", já que era culpado do que o acusavam. Ou seja, Francesco morre por sua avareza, como Judas, e, por ser avarento, é culpado de sua morte, como foi seu antepassado! E o assassinato de Francesco é um tipo de mini-clímax. Clímax, mesmo, que será a cena do jantar. Nesse sentido, todos os assassinatos de Hannibal, nesse filme, se revelam tão interessantes como no anterior.

Não podemos duvidar da capacidade de Ridley Scott em, quando quer, fazer um ótimo filme. Que Hannibal é inferior ao anterior, óbvio que sim. Tem seus defeitos e problemas. Mas, com certeza, é um filme interessante e fascinante, que aproveita ao máximo seu personagem principal, Hannibal Lecter.

Fabrício Paes Coelho

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